Micaela Cyrino

30 anos, artista plástica e ativista

“Eu nasci com HIV, então não existe uma data de descoberta, eu sempre soube que eu vivia com HIV”, conta a artista plástica e ativista Micaela Cyrino, de 30 anos. “E eu morei num abrigo para crianças com HIV, então era um assunto totalmente inserido no meu convívio.”

A mãe de Micaela morreu de causas relacionadas à AIDS quando a menina tinha apenas seis anos. Desde então e até os 18 anos, ela viveu no abrigo. “Quando eu era criança, já fazia o tratamento, era tudo explicado. Eu sempre soube que tinha alguma coisa que precisava cuidar, ia ao médico uma vez por mês”, lembra. “Mas eu comecei a falar sobre viver com HIV na adolescência, com 13 anos, justamente porque eu não conseguia entender por que eu não podia falar sobre HIV em alguns lugares.”

“Eu perdi minha mãe em decorrência da AIDS, mas eu estou viva, estou vivendo cada dia aqui e preciso falar sobre isso”, afirma ela. “Sempre convivi muito mais com pessoas que vivem com HIV então demorei um pouco para entender como o restante da sociedade lida com isso, como ela é preconceituosa.”

A recomendação, que Micaela começou a questionar, era a de não falar sobre o HIV fora do abrigo. “Na escola que eu frequentava, comecei a contar para as pessoas que eu tinha HIV e isso começou a gerar coisas não muito positivas, de exclusão. Mas vivia em outros ambientes também que me fortaleciam para conseguir falar. Participava de grupos de apoio e de grupo de teatro, que me incentivavam a falar.”

Micaela conta que no começo ouvia indiretas sobre o fato de falar “com orgulho sobre o HIV”. Não era orgulho, explica ela. “Mas sim o fato de eu falar sobre algo que eu vivo, de uma realidade que eu vivo. Já fui muito questionada nesse sentido, sobre qual a necessidade disso. Mas eu tenho certeza dessa necessidade”, afirma ela.

“A AIDS tem mais de 30 anos, existe tratamento, existe prevenção, mas não temos um diálogo avançado sobre isso, tudo é colocado como um problema do outro, não como um problema social a ser resolvido em sociedade. E falo da AIDS para além da transmissão, da biologia, do que acontece no corpo de alguém que vive com HIV, mas sobre como a sociedade olha para a epidemia. A gente avança muito clinicamente, mas as cabeças continuam as mesmas, ninguém quer falar sobre o assunto, ninguém quer fazer o teste, é uma coisa tipo deixa pra lá, não fala sobre isso, vamos fingir que não existe.”

Ao longo deste anos, Micaela conheceu as diferentes nuances do estigma e da discriminação...

Micaela conta que, pessoalmente, enfrentou preconceitos por viver com HIV, mas não foram os piores que já teve de encarar. Por ter nascido com HIV, avalia ela, a “culpa” normalmente ligada à infecção é transferida para outra pessoa, no caso, sua mãe. “O preconceito que eu sofro é muito velado, muito tutelado, é tipo ‘coitada, ela não teve culpa’. Porque o HIV ainda é muito relacionado à culpa.”

A artista plástica diz que sofre muito mais preconceito por ser mulher e negra. “Até porque minha pele é a primeira coisa que as pessoas veem e para saber minha sorologia eu preciso falar sobre ela”, diz. “Hoje em dia eu não sofro de sorofobia porque acho que o meu entendimento e o meu acesso impossibilitam os preconceitos de chegarem até mim. Mas todas as experiências de preconceito que eu tive com o HIV não são nem um terço da experiência que tive com racismo. Porque eu sofro com o racismo diariamente.”

Essas vivências negativas, no entanto, impulsionaram Micaela. Atualmente ela integra o Coletivo Amem -- formado por artistas negras e negros LGBT. Neste ano, ela apresentou a performance A Cura, sobre corpos negros femininos e a epidemia de AIDS, no qual chama a atenção para o avanço da doença entre os negros. “A população que mais morre em decorrência da AIDS é a população negra. Há um silenciamento sobre o assunto, mas não podemos deixar de dizer que a AIDS é um viés do genocídio da população negra.”

Conheça mais a Micaela Cyrino e seu trabalho entrando em contato pelo e-mail micaelacyrino@gmail.com